terça-feira, 10 de novembro de 2015

AMOR PRÓPRIO


Ontem encarei o espelho, me acomodei na poltrona de braços largos e fiquei ali namorando os meus detalhes. O tamanho dos meus olhos, o formato da minha boca, a minha cintura não tão fina e até as pontas duplas do meu cabelo. Fiquei ali por horas, me amando. Repetindo sem cessar: Moça, como você é linda. Por favor, não confunda o meu amor próprio com o egocentrismo. Não, antes de conhecer a minha história. Eu passei a minha vida inteira vestida de patinho feio, fugindo do espelho e o tratando como o meu pior inimigo. Eu o odiava por me mostrar tudo o que eu não queria ver. A celulite espalhada por toda a minha bunda e a longa distância entre a minha nuca e o meu glúteo. As estrias nos seios. A barriga nada chapada. O cabelo ressecado. As espinhas no queixo. As três linhas desenhadas na minha testa. O braço de maria-mole. Toda vez que ele escancarava minuciosamente tudo o que eu lutava para esquecer, discutíamos por horas. Eu chorava, desabafava e o culpava por tudo. Pelos relacionamentos fracassados, pelos foras que recebi e até pelos olhares que nunca consegui atrair. Eu não aceitava minhas imperfeições. Elas gritavam o tempo inteiro aqui dentro, me cegavam e não me deixavam reparar no belo par de pernas que tenho. Nem no pequeno nariz que mora no centro do meu rosto ou na mulher inteligente, determinada e engraçada que sou – capaz de seduzir qualquer pessoa. A cada término, despedida e batida de porta eu me detestava mais. Sentia-me rejeitada, feia e incapaz de despertar qualquer interesse num homem. Já pedinchei muito amor, supliquei cafuné, me humilhei por elogios simplórios e me odiei por não ser ‘bonita’ – loira, magra e dentes branquíssimos igual as bailarinas do Faustão . Deixei inúmeras vezes o meu amor-próprio de lado para manter alguém do meu lado, e todas às vezes saí com o ego ainda mais ferido e com o coração na mão. Foi numa dessas decepções, com o rímel preto escorrendo pelas bochechas e o peito sangrando que decidi mudar. Aos poucos fui mudando. De dentro para fora. Vesti a minha alma de amor, expulsei o rancor do meu peito e propus paz ao espelho. Hoje eu não me maltrato mais. Eu aprendi a amar os meus defeitos, o meu cabelo bagunçado, o sorriso torto, as olheiras profundas, a meia e o chinelo. Os dois quilos a mais, as falhas na sobrancelha e a coluna levemente curvada. Parei de me cobrar tanto e comecei a cobrar mais dos outros. Quem gosta de verdade, fica com você de vestido e pijama. Com defeitos e qualidades. Com ou sem maquiagem. Hoje o meu peito sorri, quando vê a mulher linda que reflete no espelho, porque a alma reflete aquilo que o coração guarda. E o meu coração guarda amor. Amor próprio.

Escrito por Kauane Mello e Kimbelly Gomes – Via Suspiros & Desatinos

domingo, 8 de novembro de 2015

MUDANÇA

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena! 


Clarisse Lispector

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Desencantar é preciso....

A questão é: como saber a hora de encerrar os nossos ciclos pessoais? Quando saberei se devo mesmo abandonar aquele trabalho que me esgota completamente? Aquele relacionamento que já não faz as estrelas dos meus olhos se acenderem? Aquele curso que eu insisto em levar adiante sem paixão? Aquele “caso” que tem mais jeito de des-caso que qualquer outra coisa?
A gente vive ouvindo (e repetindo) sobre a importância dos ciclos.
Na bíblia inclusive tem uma passagem linda sobre isso, nos Eclesiastes: “há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar; (...) tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz."
Muitos dos ciclos independem de nós, porque são regidos pelas sábias mãos da Natureza, do Destino, do Barba (meu jeito carinhoso de me referir a Deus. Acho “Deus” muito sério...), do Universo, dos Oráculos, ou seja lá o nome que cada um dá às forças invisíveis que organizam o mundo. E isso é bom, porque nos poupa de qualquer esforço e até mesmo da responsabilidade pelas mudanças ao nosso redor. Podemos ficar lá, confortavelmente sentados em nossos sofás, assistindo nossas séries no Netflix, tomando chá e tá tudo certo: o “mistério da vida” se encarrega de abrir e fechar as portas pra nós, sem que tenhamos de manejar qualquer maçaneta ou lidar com as possíveis dobradiças enferrujadas pelo tempo.
Algumas portas, porém, dependem totalmente da nossa ação para se abrirem ou se fecharem. E aí não tem zona de conforto que dê jeito: normalmente precisamos nadar contra a maré, criar disposição hercúlea, arcar com consequências doloridas.
E a grande questão é: como saber a hora de encerrar os nossos ciclos pessoais? Quando saberei se devo mesmo abandonar aquele trabalho que me esgota completamente? Aquele relacionamento que já não faz as estrelas dos meus olhos se acenderem? Aqueles “amigos” por conveniência, que não acrescentam beleza na incrível arte de (con)viver? Aquele curso que eu insisto em levar adiante sem paixão? Aquele “caso” que tem mais jeito de des-caso que qualquer outra coisa?
Bem que podia existir um abracadabra instantâneo, capaz de indicar os momentos dos nossos pontos finais. Mas não tem. E coragem sozinha não segura a biela quando as consequências chegam. Quando as contas chegam. Quando as solidões – e elas são tantas... - chegam. Quando o céu escurece. Quando você precisa criar um monstrinho imaginário chamado Martino pra conversar à noite, depois de chegar em casa e fechar a porta – literal e simbolicamente (porque sim, esta é uma das portas que o tal “mistério da vida” não consegue fechar por conta própria).
A coragem precisa estar acompanhada. Uma coragem sozinha não faz decisão. Não sei se os acompanhamentos da coragem funcionam ao estilo Outback: uns preferem batata frita, outros preferem cebola e outros preferem legumes – apesar de eu achar que legumes não combinam taaaaaanto assim com Outback. Mas ok, o acompanhamento é pessoal e intransferível.
A minha coragem, por exemplo, precisa sempre de dois acompanhamentos: de uma lista objetiva e de desencanto.
A lista objetiva pode demorar pra ficar pronta. São páginas e páginas de um diário, dias e noites pesando pacotinhos emocionais na balança do coração, horas e horas de conversa séria – com a mãe, com a tia, com as irmãs, com o Martino, com os amigos mais próximos e, acima de tudo, consigo mesmo. Mas depois de todo esse processo de maturação, geralmente a lista objetiva vira um instrumento bem confiável de decisão. Quase um “plano de negócios” pra vida – pra quem tem essa mania de racionalizar tudo como eu. Ou de pelo menos tentar, porque nem sempre o coração sai do meio do caminho.
O desencanto já é mais lento. Porque o irmão gêmeo dele, o encanto, é otimista demais. E no palco da decisão só cabe um por vez: pro desencanto entrar, o encanto precisa sair. Só que o encanto é um cara insistente! Ele vê que os passos estão desalinhados, ele vê que as estrelas dos olhos estão desbrilhando, ele vê que a alegria está esquecendo de chegar... Mas ele acha que é só um dia, só uma semana, só uma coincidência, só uma fase; que logo tudo se alinha, tudo se acende, tudo se achega. Ele tenta usar a balancinha emocional, mas acaba confundindo as medidas de cada prato (o encanto nunca é bom com coisas práticas) e ajusta um lado em quilo, outro lado em arroba. E ainda assim teima em dizer que o equilíbrio que ele enxerga na balança é a realidade do mundo. O encanto testa todos os experimentos que encontra. Passa dias e noites misturando cores, texturas e ilusões nos seus tubos de ensaio de esperança. Mas de tão incansável, chega uma hora que ele cansa... É muita espera pra nenhuma chegada. E então aos poucos ele vai desistindo. Desiste das cores, dos brilhos, dos dias e das semanas. E só então percebe o desajuste nos pratos da balança.
Ôrra, encanto! Já não era sem tempo!
O desencanto já estava cansado de esperar nos bastidores. Mas quando ele sobe no palco... Pre-para! Porque, junto com ele, o fim do ciclo chega chegando, delicadamente vestido em seu modelito avalanche. O desencanto, a essa altura, já decorou todas as frases da lista objetiva. Tá com o script afiado, na ponta da língua. Basta dar as mãos à coragem e então, finalmente, o abracadabra acontece! Vai ser duro, vai machucar. A avalanche do fim do ciclo traz consigo apertos impressionantes no lugar em que antes a gente tinha um coração todo cheio de si; traz insegurança, medos de todos os tamanhos e formatos. Mas o desencanto é um mocinho decidido e está sempre lá segurando uma plaquinha que diz SIM, ESTAMOS NO CAMINHO CERTO APESAR DOS PERRENGUES. É preciso ter força – nas pernas, nos olhos, no buraco negro que agora preenche o peito – e caminhar por um tempo em meio ao caos. Tem hora que a estrada parece longa demais, pedregosa demais, triste demais.

Só que em alguma manhã mágica, o sol nasce com força e a gente encontra uma porta no final da trilha. E é ali que nos despedimos do desencanto. É ali que termina o fim do ciclo (sim, porque até os términos precisam terminar de verdade). Basta um agradecimento rápido com aperto de mãos, sem convites para o facebook ou para jantares em casa. O desencanto já está acostumado: o papel dele é apenas fechar a porta que a gente abre no final do caminho de pedras.
E não é incrível essa sintonia entre irmãos? Mal nos despedimos do desencanto e, no primeiro passo porta adentro, lá está ele nos esperando, num palco novinho em folha: o encanto. De braços abertos, sorrisão no rosto, havaianas coloridas nos pés, óculos desalinhados, todo descabelado entre balanças, cores, fórmulas mágicas e tubos de ensaio. E a gente se joga sem pensar! Porque o brilho dos olhos dele é irresistível demais pra gente se lembrar de corações esvaziados, avalanches avassaladoras ou caminho de pedras. A propósito: alguém se lembra de uma porta fechada agora há pouco?
 
Giselle Castro

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A ERA DESCARTÁVEL

"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.” A frase do sociólogo polonês Zygmunt Bauman resume com brilhantismo a vida do homem na pós-modernidade ou como ele mesmo prefere, modernidade líquida, posto que a fluidez das relações exige que estejamos em constante mudança.
Sendo assim, vivemos sob a égide da velocidade, ou seja, toda relação que se proponha a durar não possui espaço no mundo líquido. Em outras palavras, o sucesso está relacionado à capacidade de rotatividade nos relacionamentos, isto é, a capacidade de trocar de relacionamentos no menor espaço de tempo possível.
Essa característica do homem contemporâneo é o que determina o seu sucesso segundo Bauman. Para ele, o sucesso do “homo consumens” não se caracteriza pelo acúmulo de bens (sejam materiais ou humanos), mas pela maior capacidade em desfazer-se deles.
"É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo consumens."
Posto isso, a de se considerar que a incapacidade em manter relações que apresentamos faz com que não consigamos acumular o menor volume de compras e, assim, transformamos a vida em uma grande rede descartável.
Como não consigo ter um relacionamento que me traga satisfação, tento preenchê-lo como inúmeros relacionamentos efêmeros. Esse vazio também é preenchido com bens materiais, entretanto, como o sucesso é medido pela rotatividade, faz-se necessário que troque constantemente de bens a fim de que mantenha o vazio “preenchido”.
Dessa forma, não existem laços que prendem as pessoas, de tal maneira que a todo tempo, pessoas se desfazem de pessoas, como se estas fossem tão importantes quanto um copo descartável. Aliás, uma pessoa e um copo descartável exercem a mesma função. Em um primeiro momento são úteis para atender uma necessidade imediata, mas logo em seguida, perde-se o valor e ambos são amassados e jogados fora.
Na era descartável, quanto maior for a capacidade de desfazer-se, maior é o sucesso do indivíduo. As relações humanas, assim, se caracterizam por uma imensa fragilidade, em que o valor dos relacionamentos está ligado a um prazo de validade.
Pessoas entram e saem da nossa vida sem que possamos, de fato, conhecê-las. Habituamo-nos a não criar laços, fincar raízes. Temos necessidade de relacionamentos que sejam levados pelo vento, pois só o tempo permite que criemos raízes, e estas parecem inadequadas aos nossos tempos.
Quanto maior a raiz, mais profundo um relacionamento torna-se e, por conseguinte, torna-se mais difícil arrancá-lo. Assim sendo, o valor que o outro nos atribui varia conforme a sua necessidade. Podemos ser essenciais em determinado momento, e noutro ser um estranho.
Esse intervalo entre ser essencial e ser um estranho vem diminuindo com o passar do tempo, uma vez que, como nada é feito para durar, nossas necessidades também mudam constantemente e, por conseguinte, deixamos de ter importância para o outro, pois essa importância é condicionada a necessidade que tínhamos.
O homem contemporâneo parece não gostar de raízes e busca relacionamentos baseados na facilidade de desconectar e jogar fora. Não passamos de meras mercadorias como qualquer outra, estamos ficando mais sozinhos e com relacionamentos frágeis. A era descartável é silenciosa e fugaz, quando menos esperamos, somos jogados fora, dado que nossa utilidade chegara ao fim.
Na modernidade líquida, a velocidade assume o controle e, portanto, não existe tempo para refletir, apenas fazemos e deixamos de fazer, somos importantes e deixamos de ser importantes, sem a menor capacidade de reflexão. A única capacidade que temos é a de desfazer-se e esta qualquer um pode ter.
Qualquer um pode ter, porque é fácil e a facilidade é uma jovem sedutora. Livrar-se do outro quando quiser é sempre mais fácil, o grande problema é que com o passar do tempo as opções vão diminuindo, até que todos sejam descartados e você esteja sozinho. Mas, talvez não haja tanta diferença, afinal em tempos líquidos ou descartáveis,
“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.”

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

COMER, REZAR, AMAR: TRÊS VERBOS PARA SE ENCONTRAR

Há quem diga que Liz Gilbert é uma mulher fria que abandonou o marido para curtir a vida. Há quem diga que ela é uma espécie de Bridget Jones mais magra. Há quem apenas tenha inveja e há quem diga que ela é corajosa e determinada. Eu sou da última opinião. Seria um crime grande demais ser infeliz por toda a vida porque um dia tomamos uma decisão errada ou porque não temos coragem de admitir que nós mudamos com o tempo.
Há pessoas que o entendem como um livro de "auto-ajuda". Não é. Mas e se fosse? Desde quando um livro de auto-ajuda não pode ser bom? Seja pela experiência profissional, pessoal ou pelo trabalho de pesquisa do autor, existem diversos livros que nos apóiam na reflexão de questões importantes. Nem somente de Shakespeare vive o leitor.
Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love, EUA, 2010) é um filme baseado no livro homônimo da jornalista americana Elizabeth Gilbert. A história é verídica e se passa em três países, pelos quais a escritora faz uma jornada a fim de se encontrar.
Eu sou bem democrática em relação à leitura, segundo alguns critérios, obviamente. Confesso que, à primeira vista, o livro "Comer, Rezar, Amar" não me agradou. Talvez fosse o título, direto demais. Porque há pessoas que precisam que o título seja mais intrigante, tenha algo de misterioso, ao estilo Agatha Christie. Eu sou uma dessas pessoas. É claro que é uma questão muito pessoal, mas eu - que tinha acabado de sair de um relacionamento - não estava interessada em ler um livro que me mandava fazer as três coisas que eu queria evitar - por uma questão de autocomiseração ou bom senso, não sei.
Então, algum tempo depois, fui ver o filme, mesmo com aqueles três verbos que prometiam dar-nos a luz para o autoconhecimento. Fomos ao cinema em um grupo de quatro mulheres. Todas solteiras, felizes e querendo comprar alguma passagem para um lugar bem distante daqui. É claro que o filme deu certo conosco. E muito. Não somente pela identificação com a personagem de Julia Roberts, mas pela identificação com a liberdade de comer horrores na Itália sem nos preocuparmos com o ponteiro da balança no dia seguinte.
O filme era exatamente tudo o que queríamos. Largar nossa vida e cair no mundo - de boca - em outras culturas, com a desculpa de que precisávamos achar nosso verdadeiro "eu" e toda aquela conversa típica de divã ao custo de 150 a sessão.
Depois de assistir ao filme, apesar do terrível português de Javier Bardem - que interpreta um brasileiro, atual marido de Elizabeth Gilbert - fiquei intrigada acerca do livro. Pela minha experiência tive certeza de que a versão cinematográfica escondia tesouros importantes da história.
Pois bem, li o livro. E ele consegue ser extraordinariamente encorajador e inspirador. Elizabeth Gilbert é, de fato, uma mulher forte que abriu mão de uma situação estável e conveniente para buscar o que realmente a deixava feliz. E, em um mundo no qual o comodismo e o contentamento são colossais, o livro, no mínimo, nos deixa inquietos.
O que a maioria de nós, certamente, faria - ao descobrir um descontentamento com nossa vida - seria entender isso como uma crise existencial. Choraríamos, faríamos terapia e continuaríamos na mesma. Mas Liz agiu diferente. Estava infeliz, queria mudar. Não queria o convencional - o que todas as mulheres de 36 anos desejam, ou deveriam desejar: filhos, uma casa com jardim e colchas feitas à mão, uma sopa reconfortante que borbulha no fogão - como a própria autora descreve. Não. Seus sonhos eram outros naquele momento. Mas, como dizer tal coisa para o marido e amigos? "A única coisa mais inconcebível que ir embora, era ficar". E assim, Liz Gilbert foi-se.

O roteiro, de uma forma genérica, é bem leal ao livro. Sua jornada começa na Itália, onde Liz rende-se aos prazeres culinários sem culpa. Mais tarde, vai à Índia procurar por alguma espiritualidade e paz interior. Sua viagem termina na Indonésia, onde encontra Felipe, o homem que conquistaria seu coração para sempre.
O livro virou best-seller e o filme foi elogiadíssimo pela crítica e consagra, novamente, Julia Roberts como uma da melhores atrizes de todos os tempos. Com a direção de Ryan Murphy (diretor das séries de TV "Nip/Tuck" e "Glee"), o longa traz no elenco os atores James Franco, Billy Crudup, Viola Davis e o charmoso Javier Bardem. A fotografia é espetacular e a trilha sonora é impecável, com músicas de Neil Young, Eddie Vedder, além da sonoridade brasileira de Bebel Gilberto.
Se deixarmos o preconceito de lado, podemos curtir um bom livro e um bom filme. É uma história inspiradora, a qual permite questionarmos, de maneira particular, nossa própria zona de conforto e até onde iríamos se realmente tivéssemos coragem. As circunstâncias de Liz foram essas, mas existem muitas outras diferentes que têm o potencial de fazer-nos ficar na mesma posição da jornalista.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

ESTOU TE DEIXANDO, MAS EU NÃO SOU O VILÃO DA HISTÓRIA

"Quem toma a iniciativa de romper mal sabe o bem que sua atitude acarretará, oportunizando ao outro a possibilidade de se livrar de um peso que o aprisionava a uma situação vazia de sentido, sem que o percebesse, oferecendo-lhe a chance de partir em busca de ser feliz junto de alguém que o amará de verdade, como todos de fato merecemos, por mais que doa e demore."
    Sempre que ocorre um rompimento amoroso, tendemos a tomar as dores da pessoa que foi deixada pela outra, de quem foi o sujeito passivo da história. Aparentemente, na maioria das vezes, esta sofre mais, pois ainda acreditava na possibilidade de salvação do relacionamento, enquanto o outro desistiu, deixando-a só, como que sem tentar investir em tudo o que já construíram até então.
    Textos, filmes, novelas, vários são os enredos que tratam da viagem dolorosa que implica a perda de um grande amor. Somos inevitavelmente levados a nos compadecer das dores de quem fica, enquanto costumamos retratar quem desistiu como alguém impiedoso, desprovido de compaixão. No entanto, trata-se de uma visão unilateral e muitas vezes injusta de um episódio em que duas pessoas estão envolvidas, sendo que, muito provavelmente, ambas sofrem.
    Nem sempre quem desiste do outro deve ser visto como o vilão da história, como alguém que desiste facilmente das coisas, alguém sem sentimentos, sem gratidão pela entrega alheia, afinal, é preciso coragem para perceber que não vale mais a pena investir em um relacionamento que já morreu de vez e partir em busca de um novo rumo. Desde que a separação não seja pautada por atitudes aviltantes, indignas e desrespeitosas para com o companheiro, às vezes ela é a única saída de uma situação que já não se sustenta e que está trazendo tão somente infelicidade aos envolvidos.
    É difícil acreditar em rompimentos repentinos, sem precedentes que indicassem a falência do relacionamento há tempos. A separação é o ponto culminante de um processo que já vinha sofrendo desgastes e desatenções, mesmo que o casal se negasse a enxergar isso, acomodando-se ao não respirar mais juntos. Tomar a iniciativa de querer quebrar um círculo vicioso e sufocante, nesses casos, é penoso, mas deve ser algo a ser valorizado, pois, na maioria das vezes, está se salvando as vidas que estão em jogo.
    A separação é complicada exatamente porque não envolve somente o casal, mas as famílias e amizades mais próximas também. Criamos vínculos com os familiares e amigos do parceiro e o rompimento acabará fatalmente influindo na dinâmica de todas essas relações. Na maioria das vezes, teremos de nos afastar de ambientes e de pessoas de que gostamos bastante, uma vez que muitos tomarão certamente o partido do ex, obrigando-nos a nos distanciar de lugares e de convivências que nos faziam tão bem.
    O que não podemos é julgar as pessoas, analisando-as confortavelmente acomodados aqui de fora do redemoinho, sem que tenhamos real conhecimento de tudo o que se passava na intimidade cotidiana do casal. Sabemos muito pouco sobre tudo o que foi feito, dito, acumulado naquelas vidas, ou apenas conhecemos a versão de um dos lados, o que nada mais é do que uma visão parcial e subjetiva. Tudo o que concluirmos, pois, nesses casos, também acabará sendo parcial e limitado.
    Quem toma a iniciativa de romper mal sabe o bem que sua atitude acarretará, oportunizando ao outro a possibilidade de se livrar de um peso que o aprisionava a uma situação vazia de sentido, sem que o percebesse, oferecendo-lhe a chance de partir em busca de ser feliz junto de alguém que o amará de verdade, como todos de fato merecemos, por mais que doa e demore. O tempo então se encarregará de mostrar a quem tanto sofreu a dor de ser preterido que nem sempre o lobo é mau, mas sim faz o papel de fada-madrinha, oferecendo-nos uma nova chance de recomeçar, mais seguros, fortalecidos e prontos para receber amor verdadeiro em nossas vidas.
    Marcel Camargo

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

PESSOAS NÃO SÃO RECEITAS, FAZEM RECEITAS



Não enquadre ninguém em molduras achando que aquela pessoa que você conhece em um mês é excelente, porque ela não é. É ser humano, não vai ser perfeito. E não se enquadre ao querer de ninguém, acredito que você possa ser você mesma/o. Mudar certas atitudes, sempre são necessárias, mas mudar a essência, creio que seja muito arriscado.
Muitas revistas, sites, filmes, músicas, nos fazem acreditar que nós é que devemos mudar para conquistar o outro. "Como conquistar um homem em 4 passos." "Guia prático da mulher inteligente." Cada bizarrice! Que acaba tornando muita gente cheff de cozinha. Que fica usando receitar e regras do que fazer e não fazer.
PARA! POR FAVOR! NÃO HÁ RECEITA! Não há um método que faça o outro cair aos seus pés a não ser ser você mesmo. Forçar situações, forçar ser o que não é, engolir "sapos", ficar calada/o diante de uma situação que a desagradou só para ver o outro bem... Não rola! Pessoas não são receitas, se fosse assim seria muito fácil, só seguir o roteiro e estaria tudo resolvido.
Se fosse assim, seria muito fácil se relacionar com o outro e no mundo real não é assim que as coisas funcionam. Se relacionar, seja em família, com parceiros, amigos, colegas de trabalho, tem conflitos, encontros, afeições, identificações ou não. Que você só vai saber se conviver, só se permitir-se a identificar o melhor e o pior no outro. Identificar as suas diferenças e a diferença do outro em relação a você.
Por isso há a frustração, querer que o outro atenda as ações que você mesma criou em sua cabeça, forçar o outro a ser ou fazer o que não quer. Se o outro NÃO QUER, deixa ele não querer, em algum momento você entenderá o por quê de não ter dado certo de acordo com suas expectativas.
Não enquadre ninguém em molduras achando que aquela pessoa que você conhece em um mês é excelente, porque ela não é. É ser humano, não vai ser perfeito. Não enquadre ninguém em receitas que as revistas dizem. Se ele não retornou sua ligação, pode ter sido tanta coisa... Calma! Você e nem ninguém tem o poder de prever o futuro, deduzir... um pouco, mas acertar com exatidão? Só mesmo arriscando, vivendo, sem neuras. E não se enquadre ao querer de ninguém, acredito que você possa ser você mesma/o. Mudar certas atitudes, sempre são necessárias, mas mudar a essência, creio que seja muito arriscado.
E para! O problema não é você, são as circunstâncias que a vida impõe ou que um de vocês impõe. Desencana! Dá ou não dá pra realizar, pra continuar. É SIM ou é NÃO. QUERO ou NÃO QUERO. Simples assim.
Na verdade quem cria as regras somos nós mesmos, que nos submetemos a elas ou que acreditamos nelas. A vida deveria ser vista como algo que não tem volta. Um dia é um dia e outro dia é outro dia. Mas aí você vai me dizer: Ah, mas isso é óbvio! Mas na prática não é não. Não temos o poder de determinar nada, tudo pode mudar, nem tudo depende só de nós.
Se o outro quer, bom. Se não, ótimo. Vida que segue. Por quê insistir?

Daniella Lins